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Matheus Orlando 19/08/2018

Surdos também podem assistir à TV Câmara

Emissora estreou, no início do mês, tradução para libras em transmissões ao vivo

  
Adauto Antonio Caramano: interesse pela língua Laura Agostinho

A comunidade surda de Jaú agora tem uma oportunidade para se informar e participar mais ativamente da vida política da cidade. A TV Câmara estreou, na sessão ordinária do dia 6 de agosto, a tradução e a interpretação para língua brasileira de sinais (libras) em transmissões ao vivo da emissora.
Até então, desde o segundo trimestre do ano o serviço vinha sendo disponibilizado em alguns materiais gravados da TV Câmara. De agora em diante, a tradução e a intepretação serão feitas em todas as sessões e eventos legislativos ao vivo.
O Censo de 2010, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), apontou que Jaú tinha 401 pessoas que não conseguiam ouvir de modo algum, 902 pessoas que tinham grande dificuldade para escutar, e 4.429 pessoas com alguma dificuldade para ouvir. A Associação dos Surdos de Jaú e Região (ASJA) estima que a cidade tenha entre 800 e mil usuários de libras.
O diretor de mídia da Câmara Municipal, Angelo Boaventura, diz que este é o primeiro passo para incluir os surdos na vida política de Jaú. “É importante que uma TV pública possibilite o acesso. Somos o único veículo a transmitir na íntegra todos os trabalhos legislativos. Ter a tradução é um grande passo para aumentar a inclusão”, comenta.
Para o presidente da Casa, Lucas Flores (PSD), o grande trunfo da libras na TV Câmara é democratizar o acesso à informação, além de demonstrar respeito às minorias.
“Embora a grande massa consiga nos compreender, as minorias também votam, vivem na cidade e precisam ser respeitadas e saber o que a casa do povo está discutindo”, pondera.
O primeiro tradutor e intérprete aprovado em concurso público a ser convocado pela Câmara, em abril deste ano, foi Adauto Antonio Caramano, 31 anos – o processo seletivo havia sido iniciado em 2014.
Caramano é formado em gestão da produção industrial na Faculdade de Tecnologia (Fatec) de Jaú. Durante a graduação, se interessou por um curso de libras, e logo intensificou os estudos. Habilitou-se a exercer a profissão após uma especialização, de dois anos e meio de duração, em São Paulo. Já são quase dez anos nesse meio.
“É um desafio, como a tradução de qualquer outra língua. Existe a dificuldade de entender onde o vereador quer chegar, se ele está sendo irônico ou mais escancarado”, observa Caramano.
Trabalhar em um evento ao vivo é mais complexo do que em um material gravado, em que o tradutor pode estudar, pesquisar determinados termos e escolher formas de dizer determinados conceitos. No ao vivo, é feita a interpretação simultânea, sem possibilidade de parar e tirar dúvidas. 
A tradução e a intepretação para libras, ao contrário do que muitos podem pensar, não consiste apenas em colocar o tradutor no canto da tela da televisão. Além de todo um aparato audiovisual necessário, é preciso se atentar para as normas técnicas e orientações de órgãos como a Federação Brasileira das Associações dos Profissionais Tradutores e Intérpretes e Guia-Intérpretes de Língua de Sinais (Febrapils).
De abril até agora, foram realizados vários testes, reuniões e debates antes de inserir a tradução para libras nas transmissões ao vivo. No fim, o balanço foi considerado positivo. “Não é algo feito da noite para o dia. Há estudos para que o trabalho fique bonito na TV e atenda às necessidades dos surdos”, pontua Caramano. 

Pais surdos

A outra tradutora e intérprete da Câmara, Marcela Sampaio de Souza Coló, 32 anos, teve trajetória diferente. Filha de pais surdos, aprendeu libras antes mesmo de ter contato com a língua portuguesa. Decidiu entrar para essa carreira depois de um pedido da mãe dela, Maria José, que disse não ter podido estudar por falta de intérprete.
“Quem é filho de pais surdos geralmente não segue esse caminho, pois você segue sendo intérprete deles para tudo. Mas minha mãe pediu, e hoje gosto do que faço. A libras está presente na minha vida todo dia, e o trabalho nem chega a ser um esforço”, conta Marcela.
Como na época não havia graduação em libras (hoje há um curso na Ufscar), Marcela cursou letras e pedagogia, além de ter feito pós-graduação e obtido a documentação necessária para exercer a profissão.
“É a primeira vez que trabalho com audiovisual nesse estilo da TV Câmara. Fiquei muito satisfeita com o início das transmissões ao vivo”, comemora. Além dos pais, Marcela tem duas tias, Ana do Carmo e Gonçalina, que também são surdas, e toda a família tem prestigiado a atuação de Marcela na TV Câmara.
“Isso é resultado de uma luta que começou muitos anos atrás. Antes os surdos ficavam mais ‘na deles’, mas agora têm oportunidade de participar”, conclui a tradutora e intérprete. 

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