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08/11/2018

Burkina Fasso redescobre o Koko Dunda

  
Criações do estilista burquinense Sébastien Bazemo: ressignificação ao tecido Fotos: Divulgação

Antes, vestir pagne era sinal de pobreza. Tanto é assim que, em Burkina Fasso, esse tecido - o mais barato do mercado, algo como tradicionalmente seria uma espécie de chita no Brasil - tinha apelidos muito pouco dignificantes, como “fácil de comprar” ou “meu marido está desempregado”. Mas bastou um estilista conseguir emplacá-lo nas passarelas locais para virar febre nacional e até mudar de nome: agora é Koko Dunda e veste de empresários a modelos, de artistas a políticos do país no oeste africano. Um deles é o presidente burquinense, Roch Marc Christian Kaboré.
“Para mim, o pagne sempre fez parte da cultura africana e acho que essa é a nossa identidade. Eu sempre busco colocar um toque africano distinto a cada coleção que faço. E o Koko Dunda é um legado de nossos ancestrais e uma riqueza que temos”, afirma, à reportagem, o designer Sébastien Bazemo, mais conhecido como Bazem’Sé, que impulsionou a reinvenção do material e o transformou na Cinderela da moda local.
Koko Dunda alude ao lugar onde o tecido é produzido, “às portas de Koko”, na língua bambara. Koko é um bairro popular em Bobo Dioulasso, a segunda maior cidade do país, depois da capital, Uagadugu.
O pagne, um tipo de algodão barato tingido há gerações em Burkina Fasso, é uma expressão da cultura local que vinha sendo sistematicamente substituída pela importação de roupas de segunda mão vindas da Europa e dos Estados Unidos. Por isso, Bazemo vê que ressignificar o tecido é um benefício que vai além da busca por novidades às vezes efêmeras e típicas do universo da moda. “Meu desejo é ver um dia todos - europeus, americanos, chineses - vestindo o Koko Dunda. É essa a luta que eu tenho e com a qual acho que posso contribuir.”
O estilista conta que artesãs que produzem e tingem o tecido agora não dão vazão à demanda, e que é “um orgulho” ver mulheres que hoje podem sustentar suas famílias graças à revalorização de um saber antes desprestigiado.
Após um trabalho iniciado há três anos, em que começou a inserir o tecido em propostas para públicos influentes, Bazemo conseguiu dar-lhe exposição suficiente para imprimir novos sentidos ao imaginário popular do pagne: “Pessoas públicas, políticos, jornalistas e artistas internacionais estão usando a coleção e eu vendo muito bem as minhas peças aqui em Uagadugu. Gostaria de vender mais para o mercado internacional, especialmente on-line. Mas há um grande problema de conexão com a internet na África, e muitas vezes isso se torna bastante complicado”. (FOLHAPRESS)

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