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06/12/2018

Moda da periferia é alvo de preconceito nas ruas

  
Moda das ruas influencia passarelas e vice-versa: visual inspirado na estética esportiva do hip-hop Divulgação

Gostem os puristas da moda ou não, quem dá as cartas no mundo das tendências é a rua. A paisagem fashion das periferias nos grandes centros urbanos moldou a passarela dos últimos cinco anos com uma marcha de moletons, tênis e visuais inspirado na estética esportiva do hip-hop, alçada ao status de luxo nas vitrines desta década.
Mas enquanto o hemisfério Norte glorifica a imagem das calças folgadas, dos acessórios metálicos e da turma que sai na rua ostentando sneakers (termo local para os tênis de grife) assinados por rappers midiáticos, o Brasil, dizem jovens paulistas, marginaliza, despreza e até enquadra em casos extremos.
Aos domingos, na Avenida Paulista, atrás das antiguidades de uma feira semanal e logo abaixo de outras relíquias, estas bem mais caras, de Dalí a Renoir, um megarrolezinho retrata o ápice da modernidade e o abismo que a separa do entorno dito normal do miolo da Bela Vista.
Centenas de garotos e garotas entre 16 e 20 anos se encontram no vão-livre do Masp para viver por algumas horas numa bolha fashionista, fugindo de julgamentos sobre suas roupas de "maloca", "quebrada", "trap" e "clout" - vertentes de um mesmo estilo urbano global que foi adotado pela juventude local. "Clout", no vocabulário urbano, serve para definir o visual ostensivo, e o "trap", mais fashionista e com elementos das raízes do street oitentista.
Malocas seriam, segundo o estudante Simplício Sousa, 16, o típico look rolezeiro, popularizado em 2014 nos encontros em shoppings, inspirado nos MCs da periferia e composto por bermuda estampada, polo Lacoste e tênis Mizuno. Relógio vintage de metal combinado a correntes de aço compõem o visual que, diz Sousa, "tem gente que acha ser roupa de ladrão".
A imagem do streetwear como se conhece hoje, com bandanas amarradas na cabeça, jaquetas corta-vento e sapatos pesados, remonta aos subúrbios nova-iorquinos dos anos 1980 e 1990, quando a cena musical conhecia as batidas de Public Enemy e Tupac.
Tupac Shakur, aliás, foi seminal na construção da indumentária urbana, com um estilo que essa turma atual reflete em suas referências visuais.
Com um modelo Air Jordan 6 retrô da Nike, comprado na Galeria do Rock - o shopping desses jovens -, óculos de lentes coloridas e jaqueta Adidas, o estudante Tawan Felippe, 16, define esse novo street como "espírito livre", uma forma de se divertir com os amigos e se diferenciar dos outros.
São as diferenças, aliás, que às vezes tornam sua vida um tanto complicada quando decide vestir essas roupas no dia a dia. "Preconceito existe em toda parte e rola comigo quando ando na rua e as pessoas passam escondendo a bolsa", afirma o adolescente.
Cauã Horácio, 16, conhece bem a incômoda sensação de ser julgado pelas pessoas "normais", de terno, jeans e camiseta, no metrô paulistano. Trajado com o mesmo combo bandana, tênis e jaqueta branca, só que da Palace, marca nascida no Instagram e que o fez desembolsar R$ 85 na peça - preço bem abaixo dos quase R$ 500 cobrados pelo abrigo produzido por uma grife famosa -, o estudante vê as pessoas trocarem de lugar no vagão assim que ele se senta ao lado.
"Claro que o preconceito é maior também porque sou negro, mas é muito chato quando ando à noite e a polícia já vai baixando o vidro do carro e as pessoas cruzam a rua para não passar perto", conta. Um dos mais bem-produzidos daquele rolê, ele também era um dos vários adolescentes que empunhavam uma caixa de som portátil, acessório quase essencial na composição desses looks noventistas.

Garotas

As garotas sofrem bem menos com o olhar atravessado nas ruas -o problema, elas contam, está em casa. Sabrina Sousa, 18, por exemplo, cansou de ouvir da família se iria "sair na rua desse jeito, que nem um homem", conta.
Os cabelos black power, cortados no mesmo formato adotado pela amiga Nélida Santos, 16, é emblema de como passou a valorizar suas raízes negras. "Andava sempre com cabelo lambido. Isso nunca mais", afirma Sousa, ladeada por outras duas amigas impecáveis em suas cabeleiras trançadas. Questões identitárias e de gênero são peças-chave para entender como música, moda e comportamento se fundem nos novos rolês urbanos. (FOLHAPRESS) 

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