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Jean Claude Cara, por Guilherme Lopes Mair

28/08/2015
VINUM ANIMI SPECULUM – Um papo sobre vinhos

Nesta coluna, tenho o prazer de entrevistar Jean Claude Cara, um franco-brasileiro que, entre outras coisas, teve um bistrô em Ourinhos (SP), e mora em Beaune, na Borgonha (França). Antes de qualquer coisa, um apaixonado pelo vinho. Confira!

Guilherme Lopes Mair - Como começou sua relação com o vinho?
Jean Claude Cara - Além da chupeta e do dedo do meu pai molhados no vinho, já nos primeiros anos de vida, como faço com minha filha também, começou dentro de casa, na infância, quando ajudava meu pai a preparar o vinho do ano. Íamos escolher mostos e depois engarrafávamos em casa mesmo para o consumo e para presentear os amigos.
Profissionalmente, fui músico, empresário, cozinheiro e, há dez anos, decidi trabalhar 100% com o vinho.

Mair - O que é o vinho, no seu conceito?
Cara - O vinho é um complemento alimentar milenar, um conservante de antioxidantes. É somente por esse motivo que ele chegou até a nossa geração, que fez o desfavor de, nos últimos 50 anos, por conta do capitalismo e do imediatismo, destruir grande parte dos vinhos do mundo, modificando o método de vinificação, através do qual obtemos estes benefícios. Deste modo, com as novas técnicas, o vinho se tornou um produto de prazer e status. Mesmo os assuntos sobre a saúde e o vinho hoje são interesseiros pois a questão é: quais vinhos fazem bem para saúde? 

Mair - Divulgam isso frequentemente, mas, me diga: onde o consumidor pode comprar esses vinhos em seu dia a dia e por um preço acessível?
Cara - Enfim, o consumidor hoje para ter vinho na mesa tem que ser um especialista, compreender o sistema e procurar agulha no palheiro.
Enfim, um verdadeiro vinho tem que ter uma maceração longa para extrairmos o máximo de suas propriedades antioxidantes. Aí esse vinho, no início, não será agradável.

Mair - O que o levou a decidir por morar na França?
Cara - Apesar de franco-brasileiro, ainda não tinha morado na França e, como tinha a cultura enraizada pela minha criação, tive que realizar essa vontade. A amizade com Bernard Hudelot, meu tutor hoje, também fortaleceu essa história. 
E criar filhos, ter segurança e qualidade de vida no Brasil é fora da realidade de um cidadão comum.

Mair - Quais seus projetos na Bourgogne?
Cara - Além de continuar com as empresas existentes Brasil Bourgogne, onde presto consultoria enogastronômica, enoturismo e realizo várias transações entre o Brasil e a região; e a Cavisteria, loja de vinhos exclusivos no Centro de Beaune. 
Meu projeto agora é lançar o livro “Vinhos da Bogonha”, em dezembro, pela Editora Melhoramentos, o primeiro livro da América do Sul sobre a região, onde explico a Bourgogne desde os romanos até a classificação como patrimônio Mundial da Unesco.
Também estamos lançando o programa Caves & Sabores onde, em episódios, saio pela Bourgogne profunda atrás de produtores de animais, legumes, para colher frutos, ervas, trufas; passo em um produtor de vinhos que me oferece uma garrafa; chego com essa cesta recheada fazendo surpresa para um chef da região que cozinha de improviso. Serão vídeos muito ricos em diversidade enogastronômica.

Mair - De que maneira você vê o mercado brasileiro do vinho?
Cara - Infelizmente, o brasileiro ainda é refém do sistema capitalista, portanto o vinho está relacionado a status e não a alimento, muito normal pois não é um país vitivinícola então sem base a indústria e o marketing fazem o que querem com o consumidor.
Um exemplo disso são as modas que aparecem e todos vão atrás.
Você vê importadoras criando marcas contando historias e vendendo produtos que nem existem aqui na Europa e esse produto se torna até idolatrado. Isso é muito triste.
O brasileiro precisando de instrução e cultura do vinho e muitas empresas e profissionais fazem o desfavor de mostrar o contrário por interesse imediato.
Mas isso vem mudando com o aumento do interesse pelo enoturismo, assim o enófilo está indo até uma região vitivinícola. Assim, o conceito das coisas muda um pouco, mas é só o começo.
Outro grande problema é governamental, em relação aos impostos, tanto para produção interna quanto para importação.