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Saturnália Tibiriçá

POR José Francisco Gonçalves de Souza 12/01/2018
Nos últimos dias do ano de 2017 e logo nos primeiros deste, vimos nas mídias sociais e em matérias do próprio jornal Comércio do Jahu o número de feriados prolongados e seus respectivos pontos facultativos. Isso muito me intrigou e fez com que eu refletisse, assim, gostaria de compartilhar essa reflexão com os leitores deste distinto periódico.
A questão é simples. Vivemos, como no passado, a Festa da Saturnália, em outras palavras a Saturnália Tibiriçá. Saturnália era uma festa da Roma Antiga, em louvor ao deus Saturno quando, entre diferentes ações, o escravo era presenteado com os mesmos direitos de um homem livre como, por exemplo, andar pelas ruas, sentar a mesa, jogar. No entanto, acabando as festividades, tudo voltaria ao normal, isto é, escravidão, tortura, direitos humanos suprimidos. 
A origem do nome Tibiriçá em Jaú possui origens divergentes. Hamilton Chaves, em seu livro "Dos Farrapos à Urna Eletrônica" (2006), aponta que, em determinado momento da história política jauense, um membro de uma família poderosa adota o sobrenome Tibiriçá sob o desejo de não ter sua imagem associada a este clã, com isso, a história conta que os tibiriçás são jauenses ou membros desta família influente que, na época ouro do café, estendeu seu poderio no interior paulista.
Relacionando estes dois conceitos, podemos desenvolver uma alegoria simples e intrigante. O cidadão jauense que possui uma carga horária de trabalho que ultrapassa as 60 horas semanais, desenvolve suas funções laborais sem as condições adequadas, tem seu já baixo salário diminuído ano após ano por causa da não correção da inflação, seus filhos não têm aulas com professores especialistas em determinadas áreas, não encontra medicamentos no sistema básico de saúde e vê em seus representantes públicos uma letargia quase que ensaiada e se contenta com um mero descanso casual. 
Semelhante a um presente indigesto recebido no amigo oculto que nos acostumamos mesmo não sendo o ideal, encontramos nos feriados e pontos facultativos uma medida paliativa e permeada no subconsciente, que tenta fazer que a gente esqueça os direitos trabalhistas furtados pelas reformas dos governos, os baixos salários, a falta de educação básica de qualidade, o estado babélico dos postos de saúde, além da falta de decência de alguns gestores e representantes do povo.
G. K. Chesterton (1874-1936), em seu livro "Um Esboço da Sanidade - pequeno manual do distributismo", desde o século passado atribuía ao capitalismo (ou capetalismo, como queira) o número excessivo de feriados. Realizando uma matemática simples, se tira muito povo e, como moeda de troca, faz-lhes algumas concessões, como o feriado.
Inúmeras pessoas, ao conhecer diversas realidades em outros países, dizem que no Brasil o salário mínimo é muito baixo e se espantam ao imaginar as condições que o brasileiro vive ganhando tão pouco, considerando o seu respectivo custo de vida. Registra-se que nosso País está na lista dos dez países que mais possuem feriados e pontos facultativos no mundo.
No entanto, se esquivando de apontar apenas erros e falhas desta sociedade regada pelo uso exagerado do poder, proponho ações individuais e coletivas que podemos praticar a partir do momento a que terminar de ler este artigo. No campo da individualidade, acredito que cada cidadão necessita ser inquieto, questionador e refletir as peripécias da atual conjuntura. Ver além do que se vê. Não ter como referência única o jornal das 8h ou aquele seu amigo “barbudinho”. É preciso ter um lado, mas, antes, conhecer os lados. 
Por ser ano eleitoral, não posso deixar de frisar que de modo coletivo a eleição de deputados que desenvolvam seus trabalhos em nossa região seja um bom caminho para a mudança. Nossa cidade, que já logrou de um deputado federal, deve saber os benefícios sociais de ter esse representante. Para que isso ocorra de maneira efetiva, é fundamental que conheçamos as propostas dos candidatos e que estas favoreçam, em primeiro lugar, o trabalhador e sua família e, após a eleição, fiscalizar e cobrar os eleitos.
Por fim, concluo que não precisamos de mais feriado ou pontos facultativos em 2018, 2019, 2020. O que precisamos são melhores condições de trabalho e, consequentemente, melhores condições de vida. Não podemos nos contentar com a poça d"água das concessões. Devemos nos contentar com o mar aberto da justiça social.

José Francisco Gonçalves de Souza é coordenador da Apeoesp - subsede Jaú.