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À beira do abismo

POR Carlos Ramos 12/01/2018
A notícia de que um paciente saiu de um estado gravíssimo de saúde é sempre animadora. Mas, ao mesmo tempo, exige cautela, pois sabemos que para ele retomar a condição saudável que tinha antes do problema levará tempo e será preciso cuidados especiais para que nada prejudique a sua recuperação. Tudo dando certo, em breve estará em plena forma. Caso contrário, ele poderá sofrer uma recaída e seu estado de fragilidade o deixará numa situação ainda pior. Essa imagem nos ajuda a entender as condições atuais da economia brasileira.
A evolução do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro nos últimos anos mostra que sofremos uma queda brutal. O desastre pode ser observado quando comparamos a variação positiva que foi de 7,5% em 2010 com a variação negativa de -3,77% em 2015, ou seja, a economia “encolheu” abruptamente, nossa riqueza diminuiu e entramos numa dura fase de recessão. A situação crítica permaneceu quase inalterada em 2016 quando o PIB variou em -3,60%.
Só agora a notícia começa a ser animadora. Começamos a ensaiar um processo de retomada com uma clara tendência de crescimento para os próximos anos. Ainda sem motivos para comemorar, constata-se que a economia brasileira melhorou em 2017. Apesar das diferentes avaliações, há um entendimento no mercado de que terminamos com crescimento em torno de 0,96%. Já é alguma coisa!
Tudo indica que 2018 será um ano melhor, quer dizer, temos motivos para admitir que o estado gravíssimo de crise na qual estávamos afundados começou ser superado. Evidente que levaremos anos para retomar o ritmo de crescimento anterior, mas, de qualquer forma, as perspectivas são positivas.
Entre tantas previsões, podemos destacar três levantamentos diferentes de instituições renomadas que projetam a melhora. Segundo o relatório Situação Econômica Mundial e Perspectivas (WESP), elaborado pelas Nações Unidas e divulgado recentemente, o PIB brasileiro deve crescer pelo menos 2% neste ano. Outro, elaborado pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), prevê um crescimento de 1,9%. O terceiro levantamento, este feito pelo Banco Central do Brasil com mais de cem instituições financeiras e divulgado no relatório Focus, um dos mais influentes no mercado brasileiro, aponta crescimento de 2,64%, reforçando a tendência de crescimento. 
Trocando em miúdos, há certo consenso entre especialistas de que este ano de 2018 deverá fechar com um crescimento superior a 2% e, além disso, que 2019 poderá chegar a 3%. Isso é um indicador positivo que fica mais interessante quando consideramos a combinação atual de queda na inflação e nos juros, fatores que aumentam o poder de compra das pessoas e, assim, estimulam o consumo, mola propulsora para o crescimento.  
Para usar um jargão dos economistas, “ceteris paribus”, ou seja, mantidas as mesmas condições atuais, não havendo mudanças drásticas na política econômica ou uma turbulência política mais grave do que já experimentamos até agora, tudo leva a crer que as projeções se concretizem. E é justamente esse ponto que preocupa. Estamos à beira do abismo, começando a se afastar dele, mas as eleições nacionais deste ano podem nos empurrar para ele novamente. 
Falta uma agenda clara e coerente capaz de impulsionar o desenvolvimento econômico do País. Os pré-candidatos que se apresentaram até agora só souberam tratar dos temas menores, encontram-se ocupados com ataques e defesas personalistas que não trazem perspectivas. Estão tratando da política pequena. Para piorar, parece que uma onda conservadora está levando os brasileiros a pensar nos candidatos apenas por suas opiniões superficiais sobre este ou aquele fato do cotidiano e não por seus programas de governo, principalmente na economia.
As eleições de 2018 precisam responder às questões econômicas. Mais do que nunca, nossos presidenciáveis precisam “ouvir” a famosa expressão de James Carville, estrategista da campanha de Bill Clinton à presidência da República nos Estados Unidos em 1992, que soube interpretar o momento e apontar o tema central daquela eleição: “It"s the economy, stupid" (“É a economia, estúpido”).
 
Carlos Ramos é consultor, doutor em ciência política pela Ufscar, professor nas Faculdades Integradas de Jaú e secretário de Desenvolvimento e Trabalho de Jaú.