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Ecce homo

POR Cícero Brasil Ferraz 13/01/2018
Ninguém pode negar a influência ontológica do judaísmo na estruturação do construto sócio-psíquico-espiritual do cristianismo. De fato, toda a percepção e compreensão, dogma e fé, culto e vivência secular estão calcadas na religião de Moisés.
Entretanto, afora as coisas comuns que unem as duas religiões há, no bojo dessa relação, algumas diferenças que nos surpreendem e algumas até que nos chocam. Se conquanto seja, no âmbito de teologia muito semelhante, no campo do relacionamento as ambiências e empoderamento do homem no divino assumem contornos e nuances irreconciliáveis.
Dentro do judaísmo Iaweh é o totalmente Outro transcendente, absconditus, tremendum e fascinante. Essa transcendência “esconde” a impossibilidade – dada a concepção do Ser de Deus - qualquer possibilidade de sua imanência ou comunicação pessoal com o homem comum. Deus (Iaweh) se reserva apenas a alguns homens especiais e iluminados; aqui o judaísmo é algo muito parecido com as religiões tribais.
No cristianismo – para desespero do judaísmo – esse Deus “tão distante” se faz carne humana e habita entre nós. O Deus do Além desce a Terra; o Deus absconditus “mostra sua cara”; o Deus intocável toca com mãos humanas a humanitude do homem. Ele é o Emanuel e, ao mesmo tempo, o Jesus de Nazaré, o Filho de Maria...
A interpretação que o judaísmo dá a “esse mito” é que, Iaweh, assim, se tornou, ao se fazer homem, um Deus limitado pela transitoriedade do tempo e apequenado pela sua humanidade e, sobretudo, sujeito às deficiências e pecados tão comuns aos mortais. Essa viabilidade do mal possível ao summum bonum torna Iaweh em um Deus que de Deus só tem a aparência 
O extremo do desespero judaico está em dizer que Deus morre em uma cruz. Para ele uma concepção teológica desse jaez é simplesmente loucura. Se isso fosse verdade, tornaria Iaweh um Deus pequeno e também em um Deus miserável e desgraçado; simplesmente inconcebível! 
Mas é isso mesmo que encanta os Cristãos e fortalece a sua fé. Por trás da costura da feeldade da encarnação, o cristão encontra alguém que se parece com ele e, enquanto ideal humano, totalmente diferente dele, mas transcendentalmente de possível imitação. O Jesus de Nazaré assume a completa essência humana, mas, ao mesmo tempo, a total hipóstase do Eterno. Nele Deus mora com a gente e na gente. O homem em Cristo já não é só um animal humano; torna-se em ser humano propriamente dito. 
A ontologia que transcende o humano a um grau de homem-além (hubermensch de Nietzsche), vem pelo relacionamento divino-humano de Deus com homem e do humano-divino com Deus. O Cristo da Cruz elimina qualquer possibilidade de prender Deus no Além e, ao mesmo tempo, o de não elevar o homem acima dele mesmo. A cruz torna o tempo atemporal: carrega o Além para dentro da finitude do tempo e do homem; quando Ele morre nós vivemos; quando Ele ressurge, os cristãos sobem com Ele para o céu. Enfim, Ele se torna totalmente humano para que o homem se aproprie da divindade de Seu Pai. Torna-se humano para que o homem se torne divino.
Nesse tempo sem tempo, céu e terra se fundem, homem e Deus se unificam, espírito e carne se eternizam. A esse sentimento de fusão os cristãos chamam de vida eterna. Em Cristo, o homem pode nascer de novo sem precisar morrer para sempre.

Cícero Brasil Ferraz é pastor da Igreja Presbiteriana de Jaú.
cicerobrferraz@gmail.com