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Gol de placa

POR Jorge João Marques de Oliveira 15/04/2018
Gol de placa é aquele que, pela beleza e grau de dificuldade, deveria ser registrado em inscrição de bronze na entrada do estádio de futebol para que dele jamais se pudesse esquecer. Qual o seu gol de placa? Aquele que Pelé marcou na final da Copa de 58? O de Maradona contra a Inglaterra? O de Marcelinho contra o Santos, na Vila Belmiro, que tinha o filho de Pelé como goleiro? Algum de Ronaldo, Ronaldinho ou Romário pelo Barcelona? O de Neymar contra o Flamengo? Algum da farta lista de “pinturas” do Messi? 
Vamos diminuir o tempo para os últimos 30 dias e a escolha do gol de placa fica muito mais fácil. Não, não é o gol que o amigo leitor está pensando, embora esse merecesse duas placas. Ninguém pode negar que foi um golaço. Gol de bicicleta, com a bola cruzada a mais de 2 metros de altura, na Copa dos Campeões, não é para qualquer um. Exige-se que seja assinado por um craque da estirpe de Cristiano Ronaldo.
O gol de placa a que me refiro foi assinalado no último final de semana aqui entre nós. Gol político. O atacante, jogando em seu campo, soube aproveitar a oportunidade que se apresentou como uma bola pingando na grande área aos 45 do segundo tempo. E ele não teve dúvida. Chutando de cima para baixo, à Zidane, mandou a bola no ângulo. 
Ao expedir o mandado de prisão do ex-presidente Lula na tarde de quinta-feira, dia 5 último, o juiz Sérgio Moro, invocando a dignidade do cargo que o sentenciado ocupou, permitiu que ele se apresentasse à Polícia Federal de Curitiba, no Paraná, até as 17h do dia seguinte. Essa deferência, bastante razoável diante das circunstâncias, possibilitaria que a custódia determinada se realizasse com o mínimo de incidentes previsíveis e indesejáveis. 
Ciente da ordem de prisão na mesma quinta-feira, Lula foi até o Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo, onde iniciou sua vida sindical, e ali ficou na companhia de advogados e correligionários. Do lado de fora, seus simpatizantes iniciaram uma vigília que se foi avolumando com o passar do tempo.
Expirado o prazo concedido pelo juiz (17h da sexta), Lula permanecia no interior do sindicato. Anunciou-se, no começo da noite, que ele se entregaria no dia seguinte, após participar de uma missa e fazer um pronunciamento. Como hábil driblador, o político já havia assumido as rédeas da sua própria prisão. Ele – e só ele – diria o momento em que ela se realizaria.
Lula aproveitou ao máximo os holofotes e a intensa cobertura da mídia brasileira e mundial. Participou da missa, que terminou pela hora do almoço e, à tarde, num palco armado em frente do sindicato, discursou para a militância inflamada, que exigia sua liberdade, no melhor estilo Lula. Jurou inocência; atacou a imprensa que, a seu ver, o perseguia implacavelmente e, assim, deixou a mensagem subliminar: “Não acredite no que dizem contra mim”; afirmou que a Polícia Federal, o Ministério Público e o Judiciário mentiram no processo que levou à sua condenação e, teatral, desceu ao populismo: “(...) E se for por esses crimes, de colocar pobre na universidade, negro na universidade, pobre comer carne, pobre comprar carro, pobre viajar de avião, pobre fazer sua pequena agricultura, ter sua casa própria, se esse é o crime que eu cometi, eu quero dizer, eu vou continuar sendo criminoso nesse País porque vou fazer muito mais”.   
O Lula messiânico revelou-se quando ele contou que já não era um ser humano, mas uma ideia. Com uma visão muito particular da realidade, ele falava para a militância, mas queria ser ouvido também no exterior.  
Dizendo-se vítima de uma trama insidiosa que objetivava impedir sua candidatura presidencial (pela “Lei da Ficha Limpa”, a condenação em segunda instância o torna inelegível), o ex-presidente reiterou que sua condenação era política. Logo, a seu juízo, seria ele um preso político.       
No final da tarde, Lula entregou-se à Polícia Federal. Fim de jogo. Ele havia perdido, mas tinha marcado um gol antológico, capaz de manter mobilizada a sua base e unir as esquerdas em torno do mesmo objetivo.
A nossa democracia resiste às intempéries. Em menos de 30 anos, tivemos dois presidentes cassados e, pior ainda, um ex-presidente preso. No caso de Lula, é desalentador saber, mesmo para quem, como eu, nunca lhe deu o voto, que um projeto de poder tenha esmaecido o brilho da sua extraordinária história de vida talhada na superação de obstáculos. 
O Brasil do futebol se prepara para o próximo confronto. Será em Brasília. O barulho que vem das arquibancadas é imenso e o campeonato é longo. 
Tom Jobim tinha razão. O Brasil não é para principiante.

Jorge João Marques de Oliveira é promotor de Justiça, professor de direito penal aposentado e membro do Conselho Editorial do “Comércio”.