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Idílio de inverno

POR P. Preto 14/06/2018
O inverno chegara frio e pardacento aquele ano. O vento varria as ruas acumulando folhas de árvores por todos os cantos. Embora fosse um tempo de festas e celebrações, as ruas estavam praticamente desertas. 
De vez em quando os sons de músicas chegavam até o quarto simples de hotel que o jovem ocupava. Espiando vagamente pela janela, já quase embaçada, aquele ser solitário tentava rememorar imagens do último ano. Sobre a mesa, em uma folha de papel em branco, ele tentava nela colocar a paisagem triste que se descortinava. A cidade grande era impiedosa com os solitários. Ao vagar pelas ruas, apenas os mendigos lhe estendiam a mão. As pessoas passavam rapidamente, mergulhadas em seus problemas particulares. Nem mesmo no café, que frequentava diariamente, encontrara companhia. 
Assoprando as mãos em busca de um pouco de calor reviu, mentalmente uma figura querida, sua silhueta esguia, os cabelos longos, desalinhados ou simplesmente presos no alto da cabeça. Ele a conheceu no verão do ano passado. Foram colegas do curso de desenho e, com o tempo, passaram a compartilhar um pequeno romance, uma ternura gostosa que, talvez, fosse muito maior da parte dele. Mas tiveram um relacionamento profundo. Mas, nesse presente gelado e solitário, o jovem estudante relembrava tudo o que partilharam juntos. Não foi muita coisa, é verdade, mas o bastante para marcá-lo profundamente.
Olhou novamente pela janela as ruas vazias, embora ouvisse à distância os sons alegres de uma festa típica da época. Risos se misturavam às palmas e, de vez em quando, um rojão de lágrimas cortava o céu estrelado. O jovem reviu, então, as imagens do ano passado quando a conheceu. As ruas também estavam desertas e frias quando ela adentrou pela porta da sala de aulas. Tremia de frio e de fome, mas mesmo assim sorria. Entre aqueles alunos todos compenetrados, ela era a única a sorrir. O jovem lembrou, então, que há tempos não via um sorriso tão colorido. Chegara do interior carregando seus pertences, à procura de um lugar para acomodar-se e, por essas coincidências inexplicadas da vida, foi morar no mesmo hotel, apenas no andar inferior. Foi aí, nesse local, que se aproximaram lentamente, como obra de um destino hesitante.
Com o passar dos dias foram trocando histórias, dessas que o destino escreve, não raras vezes por linhas tortas. O jovem era introspectivo, quieto. Ela era alegre, às vezes até em demasia. Ele, nessas recordações de inverno, lembrou-se do dia em que segurou suas mãos frias e trêmulas, assim como as folhas levadas pelo vento inclemente. Conversavam sobre o futuro das escolhas que fizeram. Os professores bem que avisaram: “O desenho é incerto. Pode ser uma carreira difícil, cheia de altos e baixos. Por vezes a esperança chega a desanimar”. Ela contou que já havia sentido esses problemas. Os pais eram pobres e faziam o possível para sustentá-la na cidade grande. Ela vivia como podia, contando tostões. 
O frio daquele ano passou e o verão chegou. Eles continuavam o romance, partilhando as esperanças do desenho, até que, já no final do ano ela informou que iria embora, sem destino, em busca de novos horizontes. Ele prosseguiu firme, visualizando o futuro. Vendeu alguns trabalhos, terminou o ano e voltou novamente para uma próxima etapa. Conseguiu um emprego por pouco tempo. E aí o inverno chegou novamente. E ele ali naquele quarto de hotel solitário, novamente sem ocupação e sem amigos e, principalmente, sem ela, a sua paixão que o verão levou para bem longe. Voltou a olhar pela janela. O vento continuava cada vez mais frio, exatamente como ele se sentia. Frio e vazio.
Ajeitou o papel sobre a mesa simples e passou a rabiscar algumas linhas. De repente, uma imagem surge daquele esboço. Era uma figura de mulher. Seus olhos pareciam reais, o sorriso, aquele mesmo que tanto o encantara um dia. Os cabelos, os mesmos por vezes bem revoltos. Ele ficou olhando a sua obra. Era a própria imagem de um passado não muito distante. E deu-lhe um nome singelo “idílio de inverno”.

P. Preto é jornalista.
p.preto@hotmail.com