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Colesterol para quê?

POR Patrícia Piccino Braga 10/08/2018
Há anos se fala de colesterol pra cá, colesterol pra lá e, além do aumento desmedido, há a falsa impressão de que fármacos são a melhor opção terapêutica. A Pesquisa Nacional de Saúde, do Ministério da Saúde com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), de 2013, revelou que mais de 40% dos brasileiros possuíam altos níveis de colesterol. Paralelamente, a Organização Mundial da Saúde (OMS) afirma que doenças relacionadas são as principais causas de morte do mundo. Segundo a Sociedade Brasileira de Cardiologia, os níveis são mais elevados no Brasil que nos EUA atualmente. 
O excesso de colesterol é uma dislipidemia (alteração da quantia de gorduras) que pode ter fundo hereditário e, nesse caso, maior necessidade de mudanças de hábitos. Desastrosamente, cresce o número de crianças e adolescentes acometidos. Há 20 anos, era absurdo cogitar tal fato. Isso mudou com o advento de franquias de “junk food” (caloria sem nutrientes). Responsabilidade de pais nada preocupados com consequências que, antes, atingiam apenas os mais velhos. Hoje é amplo o rol de informações em contrário.   
O colesterol é formado por frações, sendo as mais relevantes a HDL, ou colesterol “bom”, e a LDL, o “ruim”. O bom é útil sob a pele como local de produção da Vitamina D à exposição ao sol. Combate o mau colesterol, existindo um nível inferior mínimo ideal. Amplia-se com consumo de vegetais. 
O ruim é o que se deposita nas artérias, diminuindo a circulação de nutrientes e oxigênio para os tecidos do corpo. Ele se transforma em placas de ateroma na espessura da parede dos vasos e, uma vez instalado, não sai. Certa quantia até pode se desprender e formar trombos. Em alguns casos, procedimentos invasivos ajudam a desobstruir artérias. 
Falando-se em colesterolemia, a primeira ideia, em parte equivocada, recai apenas no infarto. Órgãos-alvo do acúmulo são, além do coração, outros vitais, como cérebro, rins, fígado. Na verdade, toda célula necessita de alimento e receberá pouco se obstáculos houver à boa circulação. Vale para ossos, pele, etc.. É comum, sobretudo em obesos, sobrecarga no fígado, formando a esteatose hepática (esteato=gordura). Aqui, apenas a dieta será eficaz.
Muitos são os danos das dislipidemias, como cardiovasculares, AVCs, demência, artrose precoce, distúrbios hepáticos, de ereção, entre outros. O mais surpreendente é que muitos conhecem boa parcela dos malefícios. Não atentam, como esperado, à prevenção. Alguns acreditam que após anos adeptos da alimentação nociva, como carnes vermelhas, de porco, embutidos, um medicamento irá curar-lhes quaisquer distúrbios dessa temerosa atitude. Engano novamente. Os efeitos da ingesta de gordura, especialmente animal, são acumulativos desde tenra idade, mormente em predispostos. 
Quanto aos medicamentos, deve-se salientar que não desobrigam a dieta. Não são totalmente eficazes e seu uso deve ser restrito aos que, após abolir iguarias insalubres, continuem com níveis alterados. Além disso, não eliminam os depósitos de lipídios citados. Estudos demonstram que os mais usados podem ter efeitos colaterais em boa porcentagem dos usuários como afirma a doutora Beatrice Golomb, da Califórnia, especializada nessa patologia.
Em suma, a qualidade de vida com o passar do tempo e cada vez mais cedo está ligada ao que comemos ao longo dos anos. As pessoas continuam vendo saúde como algo imediatista, com patologias tratáveis a partir de seu aparecimento por enorme gama de substâncias oriundas ou não de receituários médicos. Viver preso a uma lista de fármacos apenas minimizará ou retardará os danos do estilo de vida no qual primordial é a busca pelo prazer por meio da comida. 
A chave para reduzir grande fração das doenças é a prevenção. Com ela quase todos ganhariam. Pessoas mais saudáveis. Menos internações e intervenções cirúrgicas. Recurso público usado em outras necessidades. Fácil raciocinar quais interesses, além da pecuária e indústrias adjuntas, impedem a implementação de políticas educativas e priorizam enxurradas de atendimentos paliativos. Não é melhor colocar a sua e a saúde de seus filhos acima desses interesses?

Patrícia Piccino Braga é médica, com especialidade em clínica médica com ênfase em prevenção e em geriatria, ambientalista e fundadora da Ong Família Animal, de São José dos Campos.
https//www.facebook.com/DraPatriciaVEG/