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Corando de vergonha

POR Maria Toledo Arruda Galvão de França 08/11/2018
Sempre achei que um dos motivos para a vida ser tão fascinante é a diversidade das pessoas, de suas culturas, de suas personalidades e do quanto temos a aprender e a enriquecer nossas mentes com essas diferenças. Porém, desde que o nosso pequeno grupo Por Jahu se formou - com voluntários unidos apenas pelo amor à cidade, pela preocupação com o descaso administrativo e o atual abandono em que ela se encontra - e nos propusemos a frequentar as sessões da Câmara, tive a desagradável surpresa de me deparar com uma inesperada insensibilidade existente na maioria dos vereadores da situação.  
Esse sentimento é visível na maneira indiferente com que representam a população ignorando os seus anseios e necessidades, na omissão e na submissão constante ao Executivo – passando-nos apenas desconfiança, tristeza e decepção - como no dia da aprovação das novas secretarias.
Não dá para acreditar que tenham mentes tão embotadas que não possam entender o recado que a população tenta lhes passar, fazendo por si mesma a limpeza da cidade – limpeza devida pela administração municipal a todos os que pagam os tributos necessários para viverem em um ambiente saudável, conservado e limpo, até mesmo os salários do Executivo e do Legislativo. 
Serão tão insensíveis para não corar de vergonha com a bonita lição que está sendo dada para uma administração omissa e para as pessoas que jogam o lixo onde não devem? Sentir-se-ão tão acovardados que preferem ser coniventes com essa omissão a exigir do Executivo uma licitação urgente para o lixo? Por que não ocupam a tribuna pensando nos moradores que representam? Por que não se unem aos vereadores da oposição pelo bem da cidade? Não foram eleitos para essa finalidade? Por que ignoram a grave possibilidade de outra epidemia de dengue com o acúmulo do lixo e a chegada das chuvas? Será que somente os moradores coram de vergonha ao apresentar uma cidade rodeada de lixo para os visitantes? Serão mesmo tão obtusos para não compreender e corar de vergonha com o claríssimo recado dado?
Por tudo isso, foi deplorável ouvir um vereador sugerir, sem corar, uma moção de parabéns para o voluntário Márcio Almeida (de quem muito nos orgulhamos e que pertence ao nosso grupo), fazendo-se desentendido da mensagem que o Márcio e sua equipe de voluntários na limpeza de ruas e praças tentaram passar. E sugeriu outra moção para a empresa que dedetizou voluntariamente o cemitério, como se este serviço não fosse também uma obrigação de quem administra esta cidade! Depois, ainda se achou no direito de criticar as pessoas que não limpam os túmulos familiares, uma livre opção particular longe de qualquer autoridade, inclusive a dele, esquecendo-se das obrigações públicas pagas pela população - que tem autoridade para criticar, deveria criticar e não o faz. Deplorável também foi escutar dois vereadores sugerirem a capina química no cemitério – comprovadamente maléfica para a saúde. Será que dão mais valor às dificuldades da capina do que à saúde das pessoas que ali passam ou ali trabalham?
Uma frase, porém, coroou o debate sobre o pedido do Ministério Público para a licitação dos boxes da nossa, inexplicavelmente maltratada, rodoviária.  Depois de muitos volteios e até mesmo de informações sobre a saúde da sua coluna vertebral, o vereador da mesa disse: “E para mostrar ao Ministério Público que estamos fugindo da inércia...”.        
Entre a cara de pau dos que fingem não entender os recados bem-educados da população; filmagens do lixo espalhado pela cidade; escorpiões, túmulos, dores particulares, herbicidas químicos e cemitério - a frase criou o único momento divertido da sessão do dia cinco.

Maria Toledo Arruda Galvão de França é dona de casa.