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A velha guerra verbal do PT

POR Gaudêncio Torquato 08/11/2018
“O pau que nasce torto não tem jeito, morre torto”. O popular ditado cai bem nesse momento sobre a cabeça dos dirigentes do PT. O novo governo nem começou e o Partido dos Trabalhadores volta ao palanque com seu verbo ácido e mal-humorado, a confirmar o velho lema que o tem distinguido ao longo de três décadas de existência: “se hay gobierno, soy contra”. Assim pensa: “o único governo que prestou e deve ser reconhecido como o melhor do País em todos os tempos foi o nosso”. Não há como argumentar com mentes empedernidas que se acostumaram a repetir mantras nas ruas e nas praças para louvar as “vestes imaculadas” de um corpo enlameado nos dutos do mensalão e do petrolão.
O PT não desce do pedestal. Na noite da derrota, Fernando Haddad fez questão de inverter a aritmética, elevou aos píncaros da glória seus 47 milhões de votos, convocou a militância para resistir e não ter medo, avocando-se como o professor-guerreiro “que não foge à luta, nem teme quem adora a liberdade à própria morte”. A ferocidade petista voltou à garganta de Gleisi Hoffmann. Certamente, como deputada, desfilará, logo no primeira dia da legislatura, o dicionário raivoso com que o PT construiu o apartheid tão conhecido como o “nós e eles”.
A democracia, como todos sabem, pressupõe o jogo dos contrários. O embate de ideias entre protagonistas é salutar para a construção de um sistema em que a liberdade de expressão, a liberdade de imprensa, o direito à livre associação, o direito de locomoção, o livre exercício dos cultos religiosos constituem, entre outros, pilares fundamentais. Esse é o cerne da nossa lei maior, a Constituição de 88, para a qual o PT, aliás, deu as costas por ter se recusado a assiná-la. Convém lembrar que, no início da redemocratização, o partido não votou em Tancredo Neves para presidente, não apoiou Itamar Franco no governo de transição e nem o Plano Real, que deu estabilidade à moeda.
Uma viseira histórica estreitou o olhar dos dirigentes petistas. Que sempre cultivaram o conceito de que no Brasil há uma banda sadia, a deles, e uma banda podre, o resto. O feitiço acabou virando contra o feiticeiro. O PT perdeu o pleito na esteira da dualidade que cultivou. E que, infelizmente, voltará a cultivar, haja vista a disposição já manifesta dos próceres petistas em fazer “oposição por oposição”. Ocorre que boa parte dos partidos que se alinham no centro-esquerda do arco ideológico não mais perfilará ao lado do PT, como é o caso de Ciro Gomes e seu PDT.
O petismo tem condições de adensar o oposicionismo no País, caso o governo Bolsonaro seja um fracasso. A recíproca é verdadeira. Se ganhar aplausos gerais, a administração comandada pelo capitão reformado do Exército queimará o estoque de força que o PT ainda detém. Urge esperar. Tentar voltar às ruas com mobilizações e discurso crítico, sem ver resultados das ações a serem empreendidas, é um risco. Que poderá ser evitado caso o partido se dedique a uma intensa reflexão interna, capaz de apontar erros cometidos e definir rumos a seguir. As alas que integram o PT estarão medindo forças para escolher os interlocutores dos próximos tempos. Se a verborragia azeda de Hoffmann persistir, sob a bandeira do “Lula livre”, é possível prever o acirramento dos ânimos sociais.  
O País carece de abrir horizontes mais claros. Espera-se do novo governante uma palavra moderada, um verbo mais acolhedor, sob o compromisso de respeito aos princípios constitucionais. A linha divisória que racha o País ao meio vai ser mais forte ou mais tênue caso os extremos contenham o ímpeto de seus ataques. O Brasil não merece viver sob eterna campanha de luta pelo poder. Há demandas prementes que podem ser atendidas, principalmente nas áreas da saúde, segurança pública, educação e mobilidade.
Enxugar a máquina administrativa, promover as reformas fundamentais – previdenciária, tributária e política –, fazer crescer o número de empregos, adotar a meritocracia, melhorar a autoestima dos brasileiros, enfim, expandir o produto interno bruto da felicidade – são desafios que devem receber o apoio de todos, partidos e lideranças. Ser contra apenas para ganhar visibilidade e, mais adiante, voltar ao poder, é fazer politicagem, não política no sentido aristotélico de servir a polis.
É hora de lembrar a lição do Barão do Amazonas, vencedor da Batalha Naval de Riachuelo: "O Brasil espera que cada um cumpra o seu dever".

Gaudêncio Torquato é jornalista, professor titular da Universidade de São Paulo (USP) e consultor político e de comunicação.
Twitter: @gaudtorquato