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A estrada de ferro douradense - parte final

POR P. Preto 08/11/2018
O texto sobre a velha e inesquecível. Douradense, o trenzinho de bitola estreita que passava exatamente onde está, atualmente, a Avenida das Nações, e depois seguia por aquele traçado que atravessa a Cecap, seguindo rumo ao Estádio do XV de Jaú até atingir a zona rural, já próximo à cidade, eis que ela era bem menor naqueles idos dos anos 60, mexeu com a lembrança de muitos leitores. O amigo Jair Coló, por exemplo, contou que, na época de moleque, como a composição passava próximo à sua casa, costumava pegava carona no trem para, com os colegas, chegar às fazendas próximas visando a usufruir, gratuitamente, de alguns produtos ali plantados. E vinham embora a pé, carregados de frutas. 
A colega Maria Waldete de Oliveira Cestari disse que o avô, senhor Pedro Munerato morava em um grande casarão exatamente onde hoje está o Hospital São Judas Tadeu e que era uma delícia ficar na janela do nono vendo o trem chegar lá longe: “(...) costumava ir muito à estação, aquela situada ao lado da Rua Doutor João Leite e lembro-me muito bem dela, inclusive quando começou a sua demolição. Fui lá ver o seu triste fim (...)”. Edson Luiz Oseliero observou que existe uma foto do trem passando pela Rua Rangel Pestana e um caminhão parado esperando pela abertura da porteira. É, naquele tempo elas existiam, assim como um encarregado de abri-las e fechá-las. E o trem cortava a cidade interrompendo o trânsito de veículos que, felizmente, não era tão grande como atualmente.
O leitor Everaldo Pirágine observou que a composição passava defronte ao campo do Tesourinha. A estação da própria Estrada de Ferro Douradense foi inaugurada em cinco de maio de 1912 e, na época, não era interligada à estação velha, detalhe que só ocorreu com a encampação da empresa pela Companhia Paulista de Estrada de Ferro, em 1949. Com a alteração no traçado da linha, por volta de 1955 o prédio da antiga estação ficou abandonado e, segundo conta José Aleixo Marques, que residiu nas imediações, ele tinha fama de ser assombrado. “Nós, garotos de então, entrávamos dentro dele, fazíamos ruídos derrubando algumas madeiras soltas ou jogando tijolos tentando, com o barulho, assustar as pessoas que por ali passavam (...)”.
E o leitor prossegue contando que muitos moradores das imediações, da Rua Francisco Glicério, principalmente, utilizavam uma passagem na cerca que ladeava os trilhos. Para utilizar esse local, as pessoas precisavam fazer uma espécie de contorno, um vão que não permitia a passagem de animais de grande porte, evitando que fossem atropelados pelas composições. A esse local os transeuntes deram o nome de “virador”, mas com uma pronúncia bem caipira. Apesar de a estação estar abandonada, os trens ainda circulavam rumo à estação mais central. E aí, os moleques gostavam de colocar moedas, tampinhas de garrafas ou latinhas nos trilhos para ver as rodas amassarem. Para isso, era preciso ficar bem próximo às locomotivas para ver o amassamento o que, muitas vezes, proporcionava um banho de água fervente quando as válvulas de pressão abriam. É bom lembrar que estamos falando de máquinas a vapor.
Com a mudança da Douradense para a estação central, ou seja, a estação da Rua Humaitá, que era bem mais central, na época, surgiu o famoso viradouro ou rotunda, uma geringonça, como disse Eurípedes Martins Romão, que servia para virar a locomotiva da Douradense, para que ela pudesse trafegar com a frente voltada para a frente e não de ré como acontecia anteriormente. O fato é que esse mecanismo fechava o trânsito da Rua Tenente Lopes, obrigando os pedestres a uma quase ginástica para poderem passar normalmente. Próximo ao local, existia um morro, o qual terminava abruptamente na Rua Quintino Bocaiuva e a molecada o utilizava para escorregar, utilizando papelões A leitora Rosa Campeis relembrou muito bem que essa depressão ficava defronte ao Bar do Jânio, e o Norberto Nicola, que por ali existia, também, as farmácias do senhor Darci e do Lázaro Pereira Bueno que, não raras vezes, acudiam os frequentadores que lá iam brincar. Foram tempos bons, despreocupados que marcaram a existência da “estada de ferro Douradense...”.

P. Preto é jornalista.
p.preto@hotmail.com