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O futuro depende de quê?

POR Clemente Ganz Lúcio 05/12/2018
O que se conhece como emprego, ocupação, direitos sociais e trabalhistas e Estado está mudando e se transformará radicalmente nos próximos anos. O que virá é completamente desconhecido. Organizada a partir do mundo do trabalho, a luta por direitos, pela liberdade, democracia, igualdade e justiça terá que ser reinventada.
Crianças e jovens de hoje serão os construtores do novo mundo, por meio do trabalho. Somente eles, que participarão desta construção, poderão achar as respostas para problemas, desafios, conflitos e contradições que surgirão, e serão inéditos. Para esse mundo que romperá com as atuais referências, será necessário criar adequadas formas de organização, de mobilização e de luta. A luta social e sindical terá que ser profundamente modificada.
E quais serão essas mudanças todas? A organização do sistema produtivo capitalista, oriundo das três revoluções industriais, está ficando para o passado. Há novos paradigmas produtivos irrompendo no cotidiano no mundo da produção e do consumo, alterando todas as dimensões do mundo do trabalho. A riqueza financeira, reunida em fundos de investimento e articulada pelos bancos, está comprando as empresas nacionais e multinacionais e a riqueza natural. O objetivo é gerar o máximo lucro para distribuir resultados trimestrais para os acionistas. As estratégias e funções econômicas e sociais dessas organizações são outras.
Verdadeiros tsunamis de inovação tecnológica visam a incrementar a produtividade e passam a substituir intensivamente o trabalho humano na indústria, na agricultura, no comércio e nos serviços. As mais variadas máquinas tomam o lugar do homem na força de trabalho e, de maneira acelerada, ampliam as possibilidades de substituir a inteligência humana em amplas áreas de conhecimento e profissões. Os efeitos disruptivos sobre as ocupações, os empregos e as profissões já são e serão cada vez mais surpreendentes, e, muitas vezes, devastadores.
São transformações por dentro do sistema capitalista de produção, de consumo e de distribuição, que agora se defrontam com as potencialidades e o poder das máquinas; com o desemprego estrutural de massas excluídas; com o aumento da desigualdade, sem precedentes; com os problemas ambientais (as mais diversas formas de poluição, a mudança climática e o aquecimento global); com as múltiplas formas de guerra, até mesmo a nuclear; com a escalada da violência, das drogas, do tráfico. Ou seja, a quantidade (quase incontável), a complexidade e a escala dos problemas afetarão de maneira radical diversas dimensões do mundo do trabalho.
Essas transformações promoverão rupturas em todo o sistema produtivo. Os agentes econômicos já viabilizam a máxima flexibilidade para promover, atuar e reagir a essa transformação, sem resistência e com segurança. As mudanças institucionais (reforma trabalhista, por exemplo) preparam e entregam esse ambiente. As reformas dos Estados, privatizações e venda de recursos naturais oferecem ao mercado ampliadas oportunidades de negócio. Está claro para a elite que as democracias devem ser controladas, para não gerar insegurança (a chamada confiança do investidor), e orientadas para aguentar as mudanças. Onde não for possível ou houver resistência, as democracias podem ser sacrificadas!
O Brasil, com as riquezas e o sistema produtivo, é um dos maiores jogadores nesse mundo e faz parte desse tsunami transformador.
O sindicalismo tem o desafio de mergulhar na reflexão sobre o futuro, prospectar os desafios, articular a compreensão da complexidade e enunciar lutas inovadoras para essa nova etapa histórica. O sindicalismo tem, mais uma vez, a tarefa de trazer para o jogo social o trabalhador como sujeito coletivo, como classe, como ator político que constrói a história de todos, das nações, dos países e, hoje, do planeta.
É preciso pensar 10, 20, 30 anos para a frente. Por isso, os principais protagonistas desse movimento são os jovens trabalhadores. Serão eles que estarão produzindo, revelando as contradições da nova produção e distribuição desse outro sistema capitalista. É esse mundo, que será nosso também, mas produzido pelos jovens, que deve instruir o debate. Serão os jovens de hoje que terão que imaginar e criar outras formas de luta a partir do mundo do trabalho. São eles que terão que se colocar em movimento. Nós seremos seus companheiros de luta e estaremos juntos, para o que der e vier, enquanto estivermos vivos!

Clemente Ganz Lúcio é sociólogo, diretor-técnico do Dieese e membro do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social (CDES) e do Grupo Reindustrialização.