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Artigo 1º, parágrafo único

POR Giovanni Mockus 21/03/2015

Seja você de direita, esquerda, centro ou que simplesmente prefira se abster dessa classificação, é inegável o fato que há muito tempo não se via um cenário tão politicamente ativo em solo brasileiro. Quase três milhões de pessoas saíram às ruas no dia 15 de março de 2015, manifestando-se por “n” fatores. Outros milhares manifestaram-se ao longo das últimas semanas pelas redes sociais.

Alguns queriam o impeachment da presidente Dilma Rousseff, os mais radicais clamavam por uma intervenção militar constitucional, mas a grande maioria, estupefata pelos inúmeros e diários escândalos de corrupção no governo federal, convergia simplesmente para medidas que inibam essa prática que tanto deturpa o nosso País. Os manifestantes eram homens e mulheres. Idosos, adultos, jovens, crianças. Brancos, negros, amarelos. Ricos e pobres. Patrões e operários. Enfim, eram brasileiros.

A BBC Brasil divulgou, na véspera das manifestações, uma análise do conteúdo brasileiro das redes sociais e a conclusão é animadora: nas semanas que antecederam aos protestos, entre as 2 milhões de citações verificadas, os conteúdos comentados referentes à política, eram quatro vezes mais popular do que os termos relacionados ao Big Brother Brasil. Uma clara indicação de que se tem uma boa consequência de toda essa movimentação política - protestos, eleições, manifestações, discussões - é o fato do brasileiro estar debatendo política. Ouso dizer que isso é mais fundamental do que qualquer reforma política realizada em Brasília.

A verdadeira reforma política está diretamente relacionada à (re) educação política. Diferente das prioridades deste governo, que cortou, por decreto da presidente, R$ 7 bilhões do orçamento da Educação somente neste ano, a mudança só virá por meio da educação. A educação social, que irá garantir a independência da intolerância, respeito às liberdades individuais e coletivas; a educação acadêmica, que irá garantir a independência econômica e a prosperidade das famílias brasileiras; e a educação política, que irá garantir a nossa independência do antigo sistema político, dos coronéis que se apossaram das cadeiras do Congresso, dos atos que impedem o cumprimento da nossa Constituição Federal. Irá garantir a segunda independência da nossa Nação. Não é um processo fácil, tão pouco para resultados a curto prazo, mas, certamente, irá surtir efeitos em algumas gerações.

Projetos pioneiros como o Jovens Pensadores na Baixada Santista, ou o Protagonismo Juvenil como Via para Construir meu Projeto de Vida, no Centro-Oeste do Estado de São Paulo, trabalham o desenvolvimento da criança e do jovem em uma educação política. Instituições como a Rede de Ação Política pela Sustentabilidade (Raps), já buscam a formação e capacitação de futuras lideranças e empreendedores sociais, em um processo político mais ético, transparente e sustentável. Esses são exemplos de como a verdadeira reforma política já começou no Brasil, cabe a nós aderi-la e fazê-la dar certo.

É um momento de extrema relevância para a história do nosso País. A quantidade de brasileiros que foram às ruas na última semana fora quase a mesma quantidade que deu a vitória presidencial à Dilma Rousseff. Cerca de três milhões de brasileiros decidiram a eleição mais acirrada da nossa história e cerca de três milhões de brasileiros reivindicaram direitos básicos, reivindicaram o fim da corrupção.

Estamos em um momento de debates e diálogos. Um efeito que já se arrasta desde as eleições. Não se via antes tantas postagens, menções, conversas e emissão de opiniões referentes à política. Isso é extraordinário, seja a sua opinião pró ou contra o governo. O brasileiro está debatendo política e esse é o caminho. Quinze de março de 2015 foi o maior ato de manifestação públicas já realizadas neste País, maior inclusive que o movimento Diretas Já dos anos 80.

O artigo primeiro, parágrafo único da Constituição Federal brasileira, diz o seguinte: “Todo o poder emana do povo, que o exerce por meio de representantes eleitos ou diretamente, nos termos desta Constituição”. É claro, direto, objetivo.

Giovanni Mockus é graduando em gestão de políticas públicas pela Universidade de Brasília (UNB) e membro da Rede Sustentabilidade. Twitter: @giovannimockus