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"Olhai por nois"

POR Luiz Malavolta 14/04/2018
Há pouco mais de um ano, na calçada da Rua Roberto Simonsen, quase em frente ao número 136, onde se localiza o solar da marquesa de Santos (que foi amante de Dom Pedro I), surgiu uma enorme pedra de cor avermelhada. Deveria pesar uns 100 quilos.
Estava no meio da calçada estreita, onde o movimento de pedestres é intenso o dia todo. Essa via, segundo historiadores, foi a primeira rua da cidade de São Paulo, após sua fundação. A Roberto Simonsen, pela numeração atual, termina na lateral esquerda do Pateo do Collegio, que vem a ser o local exato onde o padre José de Anchieta ergueu a primeira edificação da maior cidade da América do Sul.
Os manobristas de um estacionamento próximo do local onde foi deixada a pedra estavam encafifados com aquele bloco abandonado na calçada. Um deles garantia que não viu nenhum movimento estranho. Só foi dar conta da existência daquela coisa quando o colega lhe chamou a atenção.
Moradores de rua, que habitam a região, não teriam muque suficiente para transportar a enorme pedra com as próprias mãos. O fato é que aquele bloco de granito estava atrapalhando a passagem das pessoas.
De repente, numa cidade onde reina a indiferença e impera o individualismo, manobristas, contínuo e segurança de um restaurante se reuniram no meio-fio para discutir como aquele pedregulho havia chegado ali, atrapalhando a rotina da região. Afinal, quem colocou aquela pedra no meio do caminho?
O vigia disse aos colegas que a questão não era tentar descobrir quem abandonara aquele monstrengo no passeio público, mas pedir providências para retirá-lo dali.
Os interlocutores do vigia acabaram concordando. Era mais sensato. O rapaz sacou o celular e iniciou uma verdadeira maratona. Ligou para o telefone geral da prefeitura. A telefonista queria saber com quem ele queria falar. Como não conhecia ninguém na administração municipal, não conseguiu ser atendido. Tentou falar, então, na Prefeitura Regional da Sé. Foi atendido por um homem, que alegou ser sexta-feira à tarde e que o expediente estava terminando. “Liga na segunda-feira”, sugeriu.
O impasse estava criado. O que fazer? Decidiram, então, que o melhor era mesmo deixar o problema para resolver na segunda-feira. Até lá, a pedra ficaria no meio da calçada. Estava eu ali participando daquela situação insólita e a me lembrar da poesia de Drummond: “Nunca me esquecerei que no meio do caminho/ Tinha uma pedra/ Tinha uma pedra no meio do caminho/ No meio do caminho tinha uma pedra”.
O manobrista sentenciou que havia algo de sobrenatural no aparecimento daquele bloco de granito no meio da calçada. Segundo ele, nas madrugadas escuras da capital, naquele pedaço de mundo, aconteciam coisas misteriosas, que ele ouvira ou presenciara. Cearense e repentista, migrado havia muitos anos para São Paulo, disse que era tão crente no sobrenatural que desvia de macumba, reza antes de dormir e que, na sua terra natal, no sertão, já tivera experiências com mula sem cabeça, corujas emissárias de más notícias e até de avisos de morte em família.
“Aqui, nos primórdios, mataram muitos índios, açoitaram muitos escravos e o solar da marquesa de Santos era um antro de perdição. Ali, depois, virou depósito de presos, que apanhavam até estrebuchar. Na calada da noite, se resolvem muitas desavenças fúteis. A energia negativa é pesada aqui. Até arrepio só de falar do assunto”, disse-me ele.
A segunda-feira chegou com a pedra no meio do caminho. O manobrista e o vigia voltaram a tentar ajuda, mas as ligações caíam antes que a conversa fosse concluída.
Na terça-feira, passei pelo local para saber o fim da estória. A pedra permanecia inerte na calçada. Tirei uma foto com o celular e a mandei para um amigo que trabalhava na administração. Fiz um breve relato. Na quarta-feira à tarde, um caminhão encostou na via, uns funcionários desceram e, finalmente, removeram a pedra, que foi levada para local não sabido.
Na última segunda-feira, as emissoras de rádio e TV passaram a noticiar que, durante a madrugada, duas pessoas chegaram a pé ao Pateo do Collegio, onde um punhado de moradores de rua dormia junto à parede do prédio histórico. Com um equipamento nas mãos, esguicharam na parede do prédio uma tinta vermelha, onde escreveram “Olhai por nois”, no estilo Joesley (“nóis vai”).
A cena foi registrada pelas câmeras de segurança. A qualidade das imagens não permite a identificação dos audazes pichadores. A polícia passou a semana sem dar uma informação de que o caso havia sido esclarecido. Ontem, sexta, disse ter detido dois suspeitos. Eles foram ouvidos e liberados.
O Pateo do Collegio é o berço de nascimento da capital paulista. O prédio, como o conhecemos hoje, é uma réplica da edificação original, que foi destruída ao longo dos séculos por ação do homem e do tempo. Dela restou o que se convencionou chamar de “redução jesuítica”. Ou seja, uma parede feitas de barro e madeira, conhecida por taipa.
O edifício atual foi construído nas décadas de 1950 e 1970, seguindo desenhos e relatos históricos. A edificação refeita foi tombada pelo patrimônio histórico de São Paulo. No interior do colégio, existe um museu. Nele fica em exposição uma parte do úmero, o maior e mais longo osso do braço. Segundo a igreja católica, o úmero é de José de Anchieta, hoje tornado santo pelo Vaticano. Esse e outros ossos foram enviados de Lisboa para São Paulo em 1980. O Pateo pertence à igreja católica, que administra o local. Para a igreja, os ossos são “relíquias”.
Tive a sensação de que o “Olhai por nois” esguichado à parede do antigo colégio e igreja não é apenas uma pichação. Parece ser uma mensagem cifrada do tipo “decifra-me ou te devoro”, o desafio da Esfinge de Tebas, que eliminava aqueles que se mostrassem incapazes de responder o enigma.
São Paulo não é Tebas e nem a Grécia, mas tem seus enigmas e mistérios. Na mitologia, Tebas foi destruída e os moradores mortos ou escravizados. Na Bíblia, “olhai por nós” é uma citação recorrente. Uma advertência contra “todo aquele que prevarica”. A capital e a região metropolitana estão emporcalhadas com pichações. A Avenida Santo Amaro é um corredor horroroso visualmente falando. Os pichadores não fazem arte, fazem sujeira. São uma ”praga urbana”. Os rabiscos não têm qualquer significado. Servem apenas para danificar patrimônios.
O “Olhai por nois” talvez seja um apelo inconsciente para a cidade que abandonou os moradores mais miseráveis. O “nóis” pode ser qualquer um ou todos. Depende da interpretação restritiva ou extensiva.
A pichação, que tem de indignar todos, não é diferente de outras que foram registradas de forma escandalosa em patrimônios históricos da capital, como no Monumento às Bandeiras, no Parque do Ibirapuera (tingido de vermelho e amarelo), e a estátua de Borba Gato, em Santo Amaro, que foi atacado com tinta azul. Mas a danificação do Patteo do Collegio foi a pior de todas. A tinta vermelha impregnou na parede, nos azulejos e nos batentes de portas e janelas. Resiste em sair.
Numa nota pública, o padre Carlos Alberto Contieri, responsável pelo local, reclama: “Toda a cidade, em especial a região central, foi esquecida pelos órgãos que deveriam cuidar e proteger o patrimônio e as pessoas”. Segundo o religioso, essa “ausência de cuidados (...) demonstra ausência de amor pela cidade e pelo próximo”.
Talvez este seja o sentido de “olhai por nois”.

Luiz Malavolta é jornalista em São Paulo.
luizmalavolta@icloud.com