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"Geração Roubada"

POR Padre Beto 15/04/2018
Molly Craig (Everlyn Sampi) é uma jovem negra australiana de 14 anos que, em 1931, ao lado de sua irmã Daisy (Tianna Sansbury), de 10 anos, e sua prima Gracie (Laura Monaghan), de 8 anos, fogem de um campo do governo britânico da Austrália, criado para treinar mulheres aborígenes para serem empregadas domésticas.
Molly guia as meninas por quase três mil quilômetros por meio do interior do país, em busca da cerca que o divide e que a permitiria voltar para sua aldeia de origem, de onde foram tiradas dos braços de suas mães. Na jornada, elas são perseguidas pelos homens do terrível governador A. O. Neville (Kenneth Branagh), o qual não admite que as meninas não estejam de acordo com o ditado pela sabedoria branca e cristã.
“Geração Roubada”, de Phillip Noyce, fala sobre a imposição de uma cultura sobre as outras. Existe uma tendência no ser humano de supervalorizar o que é seu. A valorização da nossa cultura, dos nossos valores, do nosso trabalho, da nossa vida é importante. Nós não podemos menosprezar o que temos.
Mas, a valorização do que é nosso não pode ser cega e acrítica, como também a valorização do que é nosso não pode significar a desvalorização do que é do outro. Pelo contrário, o saber valorizar o que é nosso deve vir acompanhado pela admiração do que é do outro. Toda cultura, como toda pessoa humana, possui seus valores e suas qualidades.
Saber apreciar o que é bom, seja nosso ou do outro, é saber apreciar a vida e estar sempre aberto ao aprendizado. Para isso, é preciso compreender que não existe raça superior, cultura melhor que a outra ou pessoa humana sem defeitos. O que prejudica a vida humana é a arrogância e a prepotência de queremos ser donos da verdade, quando não temos a certeza disso, ou achar que somos melhores, quando na verdade não somos.
Assim acontece com partidos políticos, com times de futebol, com países e, infelizmente com as religiões. Nós precisamos estar abertos para aprender com os outros, com o melhor que os outros podem oferecer. Enquanto estivermos fechados em nosso mundo e nos vangloriando do que temos de bom deixamos de valorizar os outros e aprender com eles.
Uma forma de perder a arrogância e o egocentrismo é pensar no bem comum, na felicidade de todos. Se focarmos o nosso objetivo no bem comum e não no sucesso individual estaremos prontos para reunir o que há de bom de qualquer cultura, de qualquer religião ou de qualquer pessoa. As religiões cristãs que pregam tanto o amor deveriam ser as primeiras a considerar e valorizar as atitudes boas de pessoas de outras religiões.
Como pode uma religião que prega o amor dizer que as pessoas de outras religiões não serão salvas. Esta é talvez a maior contradição, afinal, a verdadeira comunhão não está na profissão de fé, no conteúdo da fé de cada religião, mas na capacidade dos fiéis de viverem o amor à vida e ao ser humano.
Se as religiões tivessem a consciência daqueles que elas seguem e pregam, o mundo seria muito mais humano. As religiões cristãs seguem a Jesus Cristo, aquele que conviveu com os chamados pecadores, com as prostitutas, com os cobradores de impostos e elogiou a fé do centurião romano que era pagão. Jesus viveu a comunhão com os homens e as mulheres, com as crianças e os miseráveis. Enfim, Jesus simplesmente amou. Pertence ao sentimento de amor a valorização do outro e a luta pelo bem comum.

Padre Beto é formado em direito pela Instituição Toledo de Ensino (ITE), em história pela Universidade do Sagrado Coração (USC) e em teologia pela Ludwig-Maximillian, de Munique (Alemanha).
https://www.facebook.com/PadreBetoBauru/